PAU NA CANALHA – Joaquim Ferreira dos Santos

9 08 2009

Há quem inveje o estilo literário do suicida em sua carta de despedida, aquele texto prenhe de sinceridade e emoção. O verdadeiro ponto final. Está tudo acabado, não há mais necessidade de posar e se fazer de herói. Enquanto o gás toma conta do ambiente, enquanto o guaraná com formicida faz o efeito libertário, o sujeito senta-se à mesa, pega a caneta e põe os bofes para fora. Acusa, confessa, pede perdão e acerta as contas. Nem aí para as firulas gramaticais. Acima de tudo abre o jogo com o nada a perder dos desesperados. Um belo texto, mas dele sempre pinga uma gota de melancolia.

Eu invejo o estilo literário da carta do leitor na página 6 do GLOBO.

Ele é um suicida literário, sempre prestes a cravar o peito de exclamações virulentas para que a autoridade inescrupulosa, chafurdando na lama da corrupção, tenha vergonha na cara e perceba o despropósito a que chegamos. O jornal é a grande praça pública moderna, o local para se pôr fogo às vestes e gritar que foi ele, pega esse ladrão contumaz. Será que esse energúmeno engravatado, continua o leitor, não percebe que a cidade, essa pocilga, é um valhacouto de bandidos da pior espécie?!

Eu invejo acima de tudo a boca cheia dessas cartas, todas prenhes do que os antigos chamavam de “sem papas na língua”. Num mundo dominado pelos corretores de textos, que aproveitam a deixa e corrigem também as emoções, o verbo quente do leitor assíduo fica naquela faixa da eloquência que os editores pedem aos jornalistas profissionais para que seja evitada.

Eu acho que é justamente o que falta, o pau na canalha, o ovo podre da semântica, nas páginas dos jornais.

O leitor não tem medo de processo, não escreve sob o jugo dos manuais de redação e pegou para ele todos os pontos de exclamação que o jornalismo moderno acha brega. É a sua flecha no encalço dos bandidos. Ele mete bronca, usa o “é um absurdo!” como vírgula, e estamos conversados. Não precisa no dia seguinte se desmentir no mesmo espaço, com o mesmo número de linhas. É um homem livre. Já que a autoridade constituída se escondeu no gabinete, ele usa o verbo solto como se espetasse o dedo na cara do salafrário. Nada de pose para agentes literários, nem aí para a academia.

O leitor não discute a necessidade de diploma para escrever no jornal. Passa ao largo dos bons modos da prosa contemporânea e dos regulamentos de inscrição para o Prêmio Esso. Escreve com todas as letras. Ninguém presta. Todos os políticos são bandidos, pulhas da pior espécie. Até quando, senhor prefeito?!

Eu sinceramente invejo a carta do leitor pela rapidez e clareza com que vai ao ponto. Gosto da sua despretensão estilística, uma água límpida que deixa ver no leito do rio as pedras a serem atiradas no quengo dos que se locupletam nas falcatruas públicas. Bandalheira, despautério, chusma de calhordas. O leitor não deve favor nenhum a ninguém. Jamais almoçou no palácio, jamais recebeu uma informação de cocheira do prefeito. Se há governo, é contra – e era isso que estava escrito no início da profissão de jornalista.

A carta do leitor é onde ainda se leva ao pé da letra o princípio básico do negócio de imprimir informação, uma sabedoria cunhada há tempos por Millôr Fernandes – “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados” – e tão desprezada hoje.

Não existe carta do leitor a favor. Todos reclamam, todos esculhambam os poderosos, e ele está certo. Foi exatamente para isso que se derrubaram tantas árvores e gastaram-se galões de tinta.

De todos os textos que li semana passada nenhum me vibrou mais inveja do que o da carta da leitora Cristina Silva Borensztajn, publicado dia 28 na página 6 do GLOBO com o título de “O namorado da neta”. Cristina diz que “é um escárnio, um abuso e, acima de tudo, falta de respeito ao cidadão de bem ler nos jornais a frase esnobe do namorado da neta do Sarney”. Os professores de Comunicação deveriam exibir a carta de Cristina em suas aulas como exemplo de estilo a ser perseguido. Um primor de fluência. Ela cita a tal frase, uma bobagem do pobre coitado atracado ao cargo que o senador lhe nomeou secretamente, e continua apertando a sua jugular: “Um fedelho”. Cristina finaliza na jugular do Sarney: “Isso não é um Senado”.

Eu invejo do fundo da redação, já que o coração não é mais de bom tom escancarar em público, essa veemência cívica, essa urgência de justiça, esse sangue que pulsa nas veias das vírgulas da carta do leitor. Era mais ou menos essa a trinca santa do jornalismo, e que se foi ajustando às necessidades de mais elegância no texto, mais cuidado na percepção dos códigos jurídicos e menos personalidade autoral nas matérias. Se os jornais e revistas dão a impressão de terem sido preenchidos por uma única pessoa, na carta dos leitores pululam as personalidades. É liberado o culto das idiossincrasias. É permitido desconfiar de tudo, até mesmo da integridade do jornal, e gritar o que estiver doendo do jeito que lhe aprouver o vernáculo.

Há entre os leitores quem ache a polícia do Rio uma súcia. Outros, deletéria. Sobre a Câmara há unanimidade. Só ladravaz.

Onde já se viu! Assim não dá!

Chega de jornalismo bem comportado, com bênçãos ao ombudsman e elogios ao senhor doutor.
Eu quero o estilo desabusado da carta do leitor, a cama de exclamações em que a indignação pública jamais dorme calada.

(Transcrito de O Globo de 3/8/2009)


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