AS MOSCAS DA PRAÇA PÚBLICA – Friedrich Nietzsche

5 12 2009

“Foge, meu amigo, para tua solidão! Eu te vejo aturdido pelo rumor dos grandes homens e apoquentado pelo aguilhão dos pequenos.

Dignamente contigo sabem calar-se os bosques e os rochedos. Assemelha-te de novo à árvore que amas, a árvore de grande ramagem que escuta silenciosa, suspensa sobre o mar.

Onde cessa a solidão, começa a praça pública; onde começa a praça pública começa também o ruído dos grandes cômicos e o zumbido das moscas venenosas.

No mundo as melhores coisas nada valem se não houver alguém que as ponha em cena. O povo chama a esses encenadores de grandes homens.

O povo não tem a dimensão do que é grande, quer dizer, o que cria. Mas dá sentido a todos os apresentadores e a todos os comediantes.

O mundo gira em torno dos inventores de novos valores. Gira de modo invisível, mas é em torno dos comediantes que gira o povo e a fama: assim anda o mundo.

(…) Derrubar: chama a isto demonstrar. Enlouquecer: chama a isto convencer. E o sangue é para ele o melhor de todos os argumentos.

Chama mentira e nada a uma verdade que só penetra em ouvidos apurados. Verdadeiramente só crê em deuses que provocam muito barulho no mundo.

A praça pública está cheia de palhaços solenes e o povo se vangloria de seus grandes homens. São para eles os senhores do momento.

O momento os oprime e eles a ti, por sua vez, oprimem. Exigem de si um sim ou um não. Infeliz! Queres colocar-te entre um pró e um contra?

Não invejes esses intransigentes, esses exigentes, tu que amas a verdade! Nunca a verdade pendeu do braço de um intransigente.

Diante desses impulsivos, recua para teu abrigo! Não é só na praça pública que assediam para arrancar a alguém “um sim ou um não?”

Com muito vagar é que todos os poços profundos vivem sua experiência. Têm de esperar muito tempo para saber o que foi que caiu em seu fundo.

Tudo quanto é grande passa ao largo da praça pública e da fama. Longe da praça pública e da fama sempre viveram os inventores de novos valores.

Foge, meu amigo, para tua solidão. Vejo-te atacado por moscas venenosas. Refugia-te onde sopre um vento rijo e forte!

Foge para tua solidão. Vivias próximo demais dos pequenos e mesquinhos. Não levantes mais o braço contra eles! São inumeráveis e teu destino não é ser espanta-moscas!São inumeráveis esses pequenos e mesquinhos e mais de um altivo edifício foi visto desmoronar sob a ação dessas infinitas gotas

(…)

Vejo-te picado pelas moscas venenosas, vejo-te arranhado e sangrando em muitos lugares. E teu orgulho nem uma só vez se quer encolerizar.

(…)

Muitas vezes, também se tornam amáveis contigo, mas foi sempre essa a astúcia dos covardes. Sim, os covardes são astutos!

Pensam muito em ti com sua alma mesquinha. Suspeitam sempre de ti. Tudo o que dá muito que pensar se torna inquietante.

Como és benévolo e justo, chegas a dizer: “Não têm culpa da mesquinhez de sua vida”. Mas sua alma tacanha pensa: “Aquele que vive uma grande vida é sempre culpado”.

(…)

Foge, meu amigo, para tua solidão, para onde sopre vento rijo e forte. Não é destino teu ser espanta-moscas.

Assim falava Zaratustra.”


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